<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922</id><updated>2011-10-12T07:14:55.926-07:00</updated><title type='text'>Ishdrey Maetni</title><subtitle type='html'>Contos eventuais.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>11</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-5740926219461980960</id><published>2011-03-16T18:44:00.001-07:00</published><updated>2011-03-16T18:46:41.243-07:00</updated><title type='text'>OLHOS VERDES</title><content type='html'>Ele tinha olhos verdes. Nada demais, nenhum traço de príncipe ou deus grego. Nenhum modo de marquês, luvas ou afetação, nada. Era um moleque comum, mas de olhos verdes. Brincando de ser quem os outros queriam que fosse. Bombeiro, fazendeiro, modelo, cantor, amante — sempre para os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas ao redor não, mas ele duvidava da cor dos próprios olhos. “Devem ser castanhos como os de qualquer outro. Devem ser negros, de uma falta de cor sem graça. Talvez eu seja até cego.”. Contudo, nunca deixou de fazê-los brilhar para todos. Tornou-se prisioneiro da imagem que criou — de paciente, de engraçado, de despreocupado. Pessoas vinham de muito longe para vê-lo, e partiam satisfeitas por não o terem conhecido realmente. Quando ele pensava em ficar triste, lá vinham outros espectadores; e o circo recomeçava, com o maravilhoso mágico e palhaço e domador e equilibrista de olhos verdes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu pior passatempo era dominar pequenos mundos. Atraía para si sóis, estrelas e paisagens: seus olhos funcionavam como um gigante ímã e suas mãos como doces garras devoradoras. Ele nunca conseguia enxergar tudo o que destruía, e não tinha piedade— melhor, desconhecia tal sentimento. Mas nem por isso ignorava o que era sofrer: afinal, ninguém conhecia seu mundo, nem mesmo ele; e isso era o mesmo que não ter mundo nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que ele encontrou uma senhora de olhos claros, escuros e incolores, que nunca brilhavam por si só. Ele viu o brilho dos próprios olhos, refletido nos dela, e sorriu, mesmo sem entender. Pôde ver seu próprio mundo naqueles olhos sem forma. Descobrira, talvez, uma companhia para toda a vida, alguém para o qual não precisaria fingir mesmo se quisesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorando, como nunca antes ousara fazer, abraçou-a com força. E num segundo engoliu seu mundo, seus sonhos, seus desejos (eram todos bem pequenos e couberam bem em uma só mordida), desviando os olhos para o vermelho de outra roupa quando a senhora desfaleceu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-5740926219461980960?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/5740926219461980960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=5740926219461980960' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/5740926219461980960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/5740926219461980960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2011/03/olhos-verdes.html' title='OLHOS VERDES'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-916401954488750314</id><published>2011-02-01T10:04:00.000-08:00</published><updated>2011-02-01T10:05:50.197-08:00</updated><title type='text'>RESGATE</title><content type='html'>— Não. Eu não vou passar daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pense bem. Estás tão perto agora! Mais alguns passos, tão poucos que nem perceberás a distância. Teu destino está logo ali, ao alcance das tuas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou para o penhasco à frente, cruzando os braços na frente do peito. O cansaço das pernas doídas lhe envergava as costas, deixando uma feia impressão de uma corcunda. Levava as roupas rasgadas e tinha vários arranhões e cortes a enfeitar o corpo esguio. O coque do cabelo loiro havia se desfeito no caminho, e várias mechas escondiam o rosto felino e os olhos azuis-escuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parou, mas não pareceu a ele que estivesse realmente pensando. Já estava resoluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não dá mais. Não importa. Eu não vou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Desistirás, então? Depois de todo o caminho percorrido? Sabes o que acontecerá, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sei sim. Muito bem. Eu não vou chegar a tempo de unir meu destino ao de meu amado. Isso me dói como cada um de meus cortes dói. Dói como doeu o osso do meu braço ao ser partido, um mês atrás. Há dois anos percorro essa estrada, e dois anos eu possuía para mudar nossa separação em união. Não consegui. — anunciou ela, jogando-se ao chão em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorava, mas a ele pareceu que era mais por ódio do que por desespero. Perguntou-lhe o que lhe afligia, a ela, que havia fugido de seu reino para partir atrás do amado, levado contra a vontade para servir a uma feiticeira maligna. Andara a esmo por dois longos anos, levando consigo somente a companhia dele, um espírito da floresta que se compadecera de seu amargor, e uma espada roubada do arsenal de sua família. Renegara casamentos, riquezas, conhecimentos, a uma vida de felicidade, para somente caminhar e lutar por um grande amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo aquele caminho, todas as decepções e provas, todas as superações, para pararem ali? A meros passos do grande castelo da bruxa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sim. — confirmou a mulher, limpando o suor da testa com as costas das mãos. — Eu lutei, caí e levantei inúmeras vezes. Chorei e implorei, e mais do que ninguém, você sabe que vivi mais vidas do que pretendia, e todas elas em constante dor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora... olhando de frente para este castelo... ele não me parece tão grande. Nem tão seguro. Sabemos que meu amado está vivo. Talvez esteja melhor do que eu. E, se vive bem e com saúde...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... por que não veio atrás de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espírito da floresta olhou para ela com o sentimento dos espíritos equivalente à compaixão. A paixão cega durara todo aquele tempo, e a dúvida vencera, afinal: o que a mulher não percebia, enquanto virava as costas para o castelo e retomava o caminho para casa, é que paixões cegas não são as únicas paixões que existem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não a alertou que, embora dias e noites e anos se passassem, ela ainda olharia perdidamente para o sudeste, depois que o sol nascia e logo antes de ele se por. Também se absteve de dizer a ela, doce mulher, que seu sorriso de vez em quando morreria no lento compasso de uma lembrança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos e vidas passariam, pensou o espírito, e ela se lembraria de toques e cheiros, até que não se lembrasse sequer de si mesma — a triste sina de haver caminhado num compasso enlouquecedor, e tão intenso quanto a própria vida. Silenciosamente, ele limitou-se a segui-la, agitando seus cabelos e concedendo um frescor de primavera ao caminho de volta da jovem guerreira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-916401954488750314?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/916401954488750314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=916401954488750314' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/916401954488750314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/916401954488750314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2011/02/resgate.html' title='RESGATE'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-7218118000343439639</id><published>2011-01-11T19:33:00.000-08:00</published><updated>2011-01-11T19:36:24.263-08:00</updated><title type='text'>IRMÃOS</title><content type='html'>A lua brilhava no firmamento, indiferente ao frio diabólico que se alojara no cubículo de pedra. Ele não esquecera o esplendor daquela luz, e nunca o faria — porém, tampouco podia agradecer aquela dádiva que não mais o atingia. O olho que lhe sobrar ainda derramava lágrimas, como que lamentando a órbita vazia e sangrenta que a pálpebra esquerda escondia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três noites e três dias se passaram naquele tormento, e somente sua certeza inabalável o sustentava vivo. A certeza de sua necessidade, da obrigação de estar ali e não fugir, e de sua inocência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engolindo o desespero e a dor junto com as lágrimas, Kilah ergueu os olhos para onde a parca luz iluminava. Passos, ouvira passos... ou seria mais uma alucinação provocada pela sede, pelo sofrimento, pela esperança morta? Não, era real — e, de repente, a porta se abria, e nela estava seu irmão e senhor, o príncipe Carl.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não partilhava da cor pálida da pele e dos cristalinos olhos azuis do príncipe, contudo, ambos julgavam-se irmãos, nascidos do mesmo corpo e donos da mesma alma. Kilah fora um belo e forte filha da mãe África, criado na morada dos príncipes desde muito criança e aprendendo a esconder de forma astuta, mas sem nunca deixar morrer, o orgulho de seu sangue negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o belo rosto alterado pela dor, Carl abaixou-se junto ao irmão Kilah. Olhou fundo em seu olho único, redondo e negro, e limpou com a mão enluvada o sangue que quase secara no rosto ferido. Kilah, agora, abandonara-se às lágrimas, nas mãos do único a quem se permitia revelar seus medos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O moço negro, amarrado à parede como animal, sabia o motivo pelo qual fora aprisionado, torturado e abandonado. Sabia de Annabelle, conhecia o esconderijo de suas mãos e sua perna direita e assumira a autoria do crime por amor a Carl. O filho do rei jamais seria perdoado por seus crimes, perderia seu poder e sua ascendência divina e abençoada — então ele, um pobre criado que nada possuía, ficara feliz em servir e salvar seu senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kilah não ignorava todo o poder que seu irmão de fronte alva, agora levantando, com olhar distante, possuía: com sua intervenção, seria liberto rapidamente e ganharia de volta sua singela liberdade, único bem que desejava. Movimentou os lábios, forçando a voz que não saíra por três dias, nem mesmo para formar um único grito; queria somente exprimir sua gratidão pelo príncipe não ter esquecido dele e ter vindo buscá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, mudando o semblante em um misto de asco e pavor, Carl saiu da cela sem nada falar, levando consigo toda a esperança do filho do rei negro e abandonando-o a mercê da covardia dos crimes pelos quais assumira a culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao nascer do sol, e segundos antes de perder o ar para sempre, o servo Kilah pediu perdão a si mesmo, por ter acreditado, e, com um último grito, em lugar de pedir justiça, clamou por vingança.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-7218118000343439639?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/7218118000343439639/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=7218118000343439639' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/7218118000343439639'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/7218118000343439639'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2011/01/irmaos.html' title='IRMÃOS'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-415522992177166181</id><published>2010-09-19T18:46:00.000-07:00</published><updated>2010-09-19T18:50:02.576-07:00</updated><title type='text'>OS GATOS E SARA</title><content type='html'>Ocorre, para algumas pessoas, de encontrar uma felicidade pequena quando tudo o mais pertence às trevas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode parecer exagero, mas acredite: para quem passou pelo temível vestibular, o inferno é tão tangível e real quanto o noticiário. No ano que antecede a prova, tudo o que acontece de bom parece um pouco menos. Sempre há algo maior e temível à frente, o que afasta todas as felicidades efêmeras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece, como dito, que algumas pessoas conseguem encontrar algo maior. E Sara havia conseguido uma felicidade que parecia duradoura: um namorado. Tinha cabelos castanho-claros e os olhos sérios quando tudo o mais nele era alegre, e chamava a atenção mais do que deveria. Mas ela gostava dele mesmo assim, e é o que importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela o amava, ou achava que sim. Tivera dúvida no começo, o que a afastava de qualquer tipo de manifestação excessiva de afeto. Gostava de olhar em seus olhos escuros e não imaginar futuro além do presente, e andava de mãos dadas como se não soubesse fazer mais nada além de andar. Era assim que deveria ser.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Não percebia a sombra ruindo o afeto de seu companheiro. Até que um dia, misteriosamente, sonhou que seu namorado, seu amado companheiro, havia se transformado em um gato. Um gato fofo e arisco, pelo curto malhado de branco e castanho-claro, com belos olhos verdes. Simplesmente se transformou e saiu pela porta branca da casa de sonho que ela não conhecia.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Acordou sem entender o sonho, mas ansiosa por comentá-lo com seu namorado. Esperou que ele ligasse, depois tentou ligar para ele.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Esperou e tentou por cinco dias. A mãe de seu namorado dava as informações corretas, parecia não saber que ele havia sumido. O melhor amigo dele também estranhou suas perguntas, e ambos agiam sem desprezo ou piedade. Aparentemente, ele estava levando uma vida normal, porém sem ela.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Somente após um mês o amigo de seu (ex?) namorado contou toda a história. Disse que ele não se conformava com a falta de afeto dela, decidiu por não procurá-la mais e chorou por uma semana antes de sair de casa pela primeira vez. Só que já estava feliz, com outra pessoa.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Ao perceber que ela iria atrás do ex-namorado, o amigo pacientemente argumentou: “ei, ele já está feliz. Você não faz mais parte dessa história. Você pode se poupar da humilhação de correr atrás dele, não pode?”&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Sara engoliu em seco, desligando o telefone. Ele tinha razão, uma lógica cruel de criancinhas morrendo de fome na África. Ela preferiu chorar calada, ficar um mês sem comer direito, numa fossa terrível — pelo menos emagreceria um pouco.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Preferiu, também, nunca mais encontrá-lo. Mesmo que nunca mais fosse muito tempo, achou melhor assim.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Conheceu uma pessoa, quando já ingressava na faculdade. Ele tinha olhos negros e modos alegres, e ela o fazia rir, o melhor presente que ela poderia ter.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Só que ele morreu em um acidente de carro enquanto ia para a casa dela. Foi desviar de um gato no meio da rua e perdeu o controle do veículo. Sara chorou tanto que não se lembrou de sonho algum: aliás, julgou haver esquecido como se sonhava.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Sara passou algum tempo em luto, e, quando concluía o curso da faculdade, amou um homem de cabelos compridos e gestos tão frágeis quanto o seu caráter. Foi feliz ao lado dele até que ele confessou estar se encontrando com uma outra mulher. Era sua vizinha de apartamento, dona de um gato cinza que de vez em quando arranhava a porta de Sara pedindo comida e carinho.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Sozinha em sua sala, chorando as mágoas de sua desilusão com a vida, o universo e tudo o mais, Sara ouviu o miado baixo do gato da vizinha, no corredor do prédio. Ele queria entrar, afinal, não tivera culpa do que sua dona fizera.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Cambaleando, Sara abriu a porta, deixando o animal ganhar sua sala. E, no momento em que ele pulou para seu sofá preferido, ela recordou do sonho de muitos anos atrás. A lembrança veio tão forte que ela recomeçou a chorar.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;O gato olhou para ela, e passou a lamber a pata. Ela leu em seus gestos: não ligo para o mundo, só me importo comigo. E isso diz respeito a você, mais do que imagina.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Ela passou vários anos tentando entender o que fizera para o gato. Antes do sonho, e mesmo depois dele, ela sempre adorara bichanos, e brincava com eles sempre que os encontrava. Admirava a elegância e suavidade dos gatos, e nunca mudara de opinião.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;De alguma forma, eles a afetavam. Ou seria somente sua imaginação? Era só um sonho bobo, sonhado muitos anos atrás. E duas coincidências terríveis.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Sim, devia ser isso.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;O fato é que, com o correr dos anos, as coincidências se repetiram. Tornaram-se, na verdade, até enfadonhas. Ela conhecia uma pessoa, gostava dela, e então a pessoa sumia, levada pela sombra de algum gato. Havia sempre um felino envolvido no sumiço, e ela não agüentava mais chorar por isso.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Agora, muito tempo depois dessa história, ela pode ser vista em seu apartamento. Tem aproximadamente trinta anos, e mora com algumas dezenas de gatos, que se enroscam pelos sofás e comem a comida. A maioria possui manchas acastanhadas no pelo, mas não todos.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Gatos vêm e vão, por isso ninguém se importa em notar quando um deles some. Afinal, são livres. Moram aonde querem, e pelo tempo que desejam. Ninguém sente falta de um gato.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;E esta, no final, acabou se tornando a sorte de Sara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-415522992177166181?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/415522992177166181/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=415522992177166181' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/415522992177166181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/415522992177166181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2010/09/os-gatos-e-sara.html' title='OS GATOS E SARA'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-1803391813002720005</id><published>2009-07-28T22:08:00.000-07:00</published><updated>2009-07-28T22:12:07.215-07:00</updated><title type='text'>Traições Evitáveis</title><content type='html'>&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 11"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 11"&gt;&lt;link rel="File-List" href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CCaroline%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtml1%5C01%5Cclip_filelist.xml"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;    &lt;w:dontgrowautofit/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:latentstyles deflockedstate="false" latentstylecount="156"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal 	{mso-style-parent:""; 	margin:0cm; 	margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:12.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1 	{size:612.0pt 792.0pt; 	margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; 	mso-header-margin:36.0pt; 	mso-footer-margin:36.0pt; 	mso-paper-source:0;} div.Section1 	{page:Section1;} --&gt; &lt;/style&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable 	{mso-style-name:"Tabela normal"; 	mso-tstyle-rowband-size:0; 	mso-tstyle-colband-size:0; 	mso-style-noshow:yes; 	mso-style-parent:""; 	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; 	mso-para-margin:0cm; 	mso-para-margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:10.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-ansi-language:#0400; 	mso-fareast-language:#0400; 	mso-bidi-language:#0400;} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Enganam-se aqueles que pensam que traições começam com um pensamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Algumas assim se iniciam, é claro. Mas são só as inevitáveis, aquelas às quais a mente já se acostumou, e inventou uma desculpa qualquer para não se importar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;“Ele deve estar fazendo o mesmo. Se não, já fez antes.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Quanto a essas, não há reprimendas da alma. Acontecem, e fim. Não há grandes debates ou questionamentos — a verdade é que a traição é perdoável e corriqueira, e de repente o mais fiel dos namorados transforma-se em um namorado comum.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Esta história não trata de traições perdoáveis, ou não haveria história.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Trata de uma garota comum, de desejos comuns. E com brilho demais nos olhos, vindo de um lugar que nem ela poderia saber onde ficava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Brilhos castanhos de luar e fogo, de sol e céu. Brilho perigoso, de quem não pode controlar a própria força.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Não seria propício dizer que ela amava: mais real seria dizer que ela tinha um guardião, alguém que havia expurgado todos os seus pecados e a vigiava a todo instante, protegendo-a de seus próprios demônios. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Pois, como todos sabem, toda luz produz uma sombra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Seu guardião podia vigiar seu corpo, guardar seus pés de algum tropeço, contudo não podia olhar pela alma da garota, aquela alma tão errante quanto o brilho dos seus olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Era julho, e o inverno começava. Os sonhos pareciam frios como o vento, mas mesmo assim o guardião dormia. Acordada, tanto quanto poderia, a menina olhava para as milhares de folhas que haviam caído no chão durante o outono. Elas formavam agora um magnífico tapete, dourado e marrom, macio como pele úmida, e a garota pensava em sua vida, e em seus antigos demônios.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Não, não havia traição em seus pensamentos. Eram imagens confusas que brotavam em sua mente, procurando uma felicidade perdida e enterrada embaixo de folhas que caíram em muitos outonos anteriores. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;A menina possuía uma fina corrente de prata amarrada em seu tornozelo esquerdo, que tolhia seus movimentos e a impedia de ir a qualquer lugar onde o guardião não estivesse. Ela olhava para a cordinha não com dúvida, pois sabia que era feliz: olhava como tentando lembrar se havia mesmo uma vida além dali, ou se não passara de imaginação sua.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Havia felicidade antes do guardião? Ela lembrava que sim: recordava um tempo onde podia correr e saltar pelos bosques e prados, encontrando amigos e paixões ao sabor do vento. Mas era uma felicidade nublada, como se pertencente a outra pessoa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Havia tristeza antes do guardião? Isso ela lembrava que havia, e muita. Mas as lágrimas, infelizmente, só faziam aumentar o brilho dos olhos castanhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Olhando para as árvores nuas, a garota não viu o demônio se aproximar. Ele vinha com a forma de antigos amores, tantos amores que a garota não podia sequer diferenciá-los. Não eram uma pessoa, eram uma entidade — por isso mesmo, muitíssimo mais poderoso do que qualquer um.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Ela olhou, mesmo sabendo que não devia. Mesmo se odiando por isso, olhou bem nos olhos daquele que era muitos e um só ao mesmo tempo, e reconheceu a felicidade que não lembrava mais existir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Não pensou, nem mesmo pôde ver, quando ele a tomou nos braços e a beijou suavemente, sem enganá-la. Não, ela não poderia dizer que fora iludida — sabia onde estava e o que deveria ter feito. Mas não fizera, pois, fraca, não conseguira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Fraqueza de corpo e de alma, entretanto com consciência. Não era, como se pode ver, algo que se pudesse evitar. Simplesmente era, como ela própria era, sem motivo de existir ou de mudar. Era.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Em seu torpor morno de se saber errada, a menina não percebeu o barulho de coisa trincando e partindo, que varou a noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Ainda consciente de que já houvera o erro e o mundo não a perdoaria, ela se forçou a parar. Fechando os olhos, cruzando os braços sobre o peito como se frio sentisse, ela implorou para ficar sozinha. Havia um guardião, não havia? Ou era só uma lembrança?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;O demônio demorou muito para entender que não conseguiria tudo o que queria, afinal. Obrigou-a a ficar ao seu lado, e ela não conseguia sair. Demônios são poderosos, muito mais quando se dá poder a eles. E ela soubera o tempo todo dos perigos que eles trouxeram para sua vida: sabia, só não se lembrava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Os poderes dele estavam em seu coração desde sempre, mas ela lutou mesmo assim. Lutou contra a paralisia, o torpor, a desesperança. Sabia que não seria perdoada, porém ainda assim lutou. Lembrava-se, vagamente, de um prado cheio de folhas marrons, onde seu guardião dormia, e não podia vê-la lutando, perdendo para si mesma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Concentrou-se, com o restante de sua força de vontade, ignorando os sussurros e carícias... queria voltar para sua paz. Os olhos fechados com força, ela ouviu de repente um grito furioso, uma voz que eram várias, e também os perfumes sumiam aos poucos, substituídos pelo vento frio...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Levados foram, também, pelo cheiro da morte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;A primeira coisa que a garota percebeu foi a falta da corrente que lhe prendia o pé esquerdo. Não haveria mais segurança, nem paz. Porém, ela poderia suportar, desde que ainda houvesse guardião. As coisas poderiam ser consertadas, com certa dose de compreensão e paciência — afinal, ela errara, porém encontrara o caminho de casa. Estava suja e confusa, mas voltara.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Contudo o Guardião jazia, pendurado pelo pescoço no galho mais alto da árvore, morto como as folhas espalhadas pelo chão. A corda com a qual se enforcara, a garota viu com horror, era aquela que outrora estava em sua própria perna. A corrente de prata que a livrara de seus demônios levara seu guardião para a morte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; text-indent: 45.1pt; font-family: verdana;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;A traição, por vezes, é mesmo perdoável. Infelizmente, mesmo que assim seja, traições são sempre inesquecíveis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-1803391813002720005?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/1803391813002720005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=1803391813002720005' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/1803391813002720005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/1803391813002720005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2009/07/traicoes-evitaveis.html' title='Traições Evitáveis'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-4955904446209078636</id><published>2009-06-28T21:26:00.000-07:00</published><updated>2009-06-28T21:27:26.189-07:00</updated><title type='text'>Drinking</title><content type='html'>Ele adoraria poder dizer o oposto. Mas a música sempre lhe feria os ouvidos, cortava-lhe a alma como navalha enferrujada. Tocar o saxofone o fazia sofrer, era seu modo de chorar sem que ninguém percebesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela lhe perguntava por que continuava tocando, ele costumava responder que, como todo mundo, nunca vivera um dia no qual não sentisse vontade de chorar. E que ouvi-la cantando com ele era um prazer que superava a dor — ela conseguia ser toda inacreditável quando cantava. Uma fada ou um demônio, com as notas suaves que vinham de longe, muito longe, talvez até de outra alma, contando passagens e sonhos que nunca existiram, perfeita como tudo e como coisa alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma perdida, ambos eram; entretanto, ele fechava os olhos enquanto fazia soar as notas de seu instrumento para não cegar-se com o brilho do olhar dela. Ele amava ouvi-la mesmo quando ela não percebia que cantava, e era o motivo maior pelo qual partilhava com ela seu teto e sua cama. Seu canto era para ele o que Saul ouvia de Davi, e seus demônios particulares limitavam-se a calar, bebiam das palavras doces que provinham da boca de sua Dama dos Olhos Fundos, ficando perdidos e parados diante de tamanha beleza. Ele lhe teria eterna gratidão por cada um daqueles momentos de paz, se assim lhe permitisse sua cobiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado em sua cama, tendo o saxofone apoiado na perna esquerda e a cabeça de sua companheira na perna direita, os cabelos parecendo quase dourados à luz do sol que se punha, André costumava se perguntar o que o movia a continuar. Não tinha família, mulher, amigos, grandes ambições, nada. Sempre chegava à conclusão incômoda de que não era feliz, e que precisava mudar aquela realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tal idéia cruzava sua mente, André fechava os olhos com força. Fugindo. E esperando. A voz preguiçosa, morna como a cama e tudo o mais ao redor, aconchegante, provocante, invariavelmente soava mais ou menos nesse instante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Dré, toca uma música pra mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele suspirava. E provocava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sabe que, pra mim, tocar não é prazer nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela ria, o riso quase tão musical quanto sua fala:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Devia agradecer por conseguir agradar alguém mesmo com suas lágrimas. Não é todo mundo que tem essa sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sorte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não discuta, Dré... apenas toque. Por favor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-4955904446209078636?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/4955904446209078636/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=4955904446209078636' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/4955904446209078636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/4955904446209078636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2009/06/drinking.html' title='Drinking'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-4515590645889864591</id><published>2009-03-31T14:29:00.000-07:00</published><updated>2009-03-31T14:32:12.717-07:00</updated><title type='text'>Só Por Hoje</title><content type='html'>O bar ficava muito, muito longe de sua casa, o último ônibus passara já havia algum tempo, e a garota ainda pensava no que pediria a seguir, uma vez que seu copo estava vazio pela quarta vez. O cilindro brilhante, meio borrado, irritava a jovem, lembrando ao mesmo tempo a limpeza doentia da cozinha de sua cunhada e o reflexo de seus próprios olhos no espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sozinho, o copo no balcão também refletia seus olhos, mas de um modo distorcido, esfumaçado. “Como sempre deveria ser”, resmungou ela, em pensamento. Chamou o barman e pediu outra caipirinha de sakê. De morango, dessa vez — e o homem se foi sem perguntar nada, nem ao menos quantos anos a garota tinha, porque ela sabia que ele estava curioso quanto a isso, mas que não se atreveria a conversar. Não enquanto ela estivesse com aquele olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que Pietra houvesse passado muito tempo olhando para alguém: enquanto pudesse evitar, ela nunca olhava nos olhos de ninguém, pelo menos não enquanto estava de folga. E ela estava. Por Deus, ela estava, de folga do trabalho e da vida. Dos poucos amigos e dos muitos problemas, ela simplesmente virara as costas e escapulira. “Só por um instante”, diria ela depois, à guisa de desculpas. Mas no momento ela só se preocupava em disfarçar um pequeno arroto e olhar distraidamente para o homem que preparava sua bebida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha dezessete anos, os cabelos arrumados num coque mal feito, que realçava as mechas de laranja exótico pintadas por sobre o vermelho escuro do restante dos fios. A maquiagem pesada do rosto e as roupas sóbrias ajudavam a aumentar a idade aparente: não que fosse necessário, pois nem mesmo o melhor dos observadores de um bar às 3 da manhã diriam que aquela postura, aquele cruzar de pernas e aquele jeito de segurar o copo, bebendo com indiferença, eram de uma adolescente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pietra Bueno, as pálpebras e cílios tingidas de negro, naquela noite não era somente uma investigadora particular de dezessete anos. Era algo maior, as linhas do seu pescoço haviam se engrossado e seus brincos tocavam de leve o maxilar, abaixo das orelhas, como se temessem o contato com o rosto mudado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De forma alguma — não era Pietra Bueno que estava ali. Pietra sorriria ao pegar o drinque, mesmo que fosse um sorriso de mentira, pois sorrisos-de-mentira eram o que ela trazia em maior quantidade dentro da enorme bolsa. Esta que senta no bar e aprecia a cor da caipirinha tem o corpo da pequena Pietra, tem seus olhos e sua carne, e seus dedos em anéis, mas não é ela. É algo mais antigo e sujo, escondido a sete chaves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje saiu para dar uma volta, pois Pietra assim permitira. “Farei parte de você, e você poderá esquecer”. E esquecer era o que Pietra mais desejava, sim, por favor, um pouco de paz...&lt;br /&gt;Fazia três meses desde que ela vira a Morte pela última vez, e seu cheiro podre ainda não a havia abandonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bem mais difícil enterrar os mortos quando eles caminham, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este Morto estava caminhando naquele exato momento, em algum lugar, sendo feliz. Pietra ainda se assustava a cada vulto, a cada movimento inadvertido das pessoas, a cada sopro estranho do vento; mesmo sabendo, como sabe o próprio nome, que ainda não é chegada a hora de aquele Morto voltar para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Aliás, ela queria fingir que não desejava mais aquele Morto. Mas todos sabem que não se pode enganar a Morte, e ponto final.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecendo respeitar a dor que o sangue provocara na pequena Pietra, a Pietra de hoje não sorri, mesmo quando vislumbra as memórias distorcidas e os desejos egoístas da jovem. Ela não está aqui para consertar nada, e a pequena Pietra não sabe disso. Que pena. Ainda bem que a pequena Pietra hoje está dormindo, como um anjo dormiria, ou talvez ficasse decepcionada com a conduta de seu corpo naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três meses é tempo demais ou de menos? Depende do tamanho da alma, e de sua vontade. Em três meses, sabe-se-lá-quantas-centenas de pessoas morrem, e mais tantas outras nascem. A Pietra de hoje, ao pensar nisso, olha de lado. Odeia crianças e seus olhos perspicazes e curiosos. Aquela sabedoria que sempre mete medo, que nem parece vir delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa dessa sabedoria ancestral presa em pequenos olhos, aliás, Pietra olha cada vez menos para seu próprio reflexo no espelho. Ela reconhece aquele poder das crianças no rosto da pequena Pietra, e isso a incomoda. Não agora, mas sempre incomodou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de todo o conhecimento intrínseco, a pequena Pietra estava desmanchando em seu caminho, cada vez mais, até que nem seu parceiro Daniel pudesse conversar com ela, ou entendê-la. Perdera-se dos outros, e antes de perder-se de si mesma, a Pietra de hoje surgira, e tomara o seu lugar. Só por hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou o quinto copo, levantando-se facilmente para quem esteve bebendo durante quatro horas ininterruptas. Sentia somente o corpo um pouco lento, nada com o que se preocupar. O Morto morrera, mas não morrera — e a Viva estava mais morta do que ele. Ironias da vida, o que muita gente chama de “destino” ou de “vontade divina”, e a Pietra de hoje preveria chamar de “essa merda que é a vida”. Quem chamou isso de justiça não conhecia a balança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bar não estava cheio nem vazio, e Pietra caminhou para o caixa com passos despreocupados, e de lá para a rua. Ninguém a olhara nos olhos por mais de dois segundos, e ela achou isso bom. Melhor do que estar morta, riu-se. Pelo menos este mundo ainda a via.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pequena Pietra ficaria desesperada por estar sozinha na rua às quatro da manhã, longe de casa e sem lugar para ir, mas a Pietra de hoje estava satisfeita por estar ao relento, aspirando o ar frio com prazer. Puxou um cigarro e o acendeu, observando a fumaça embaçar a vida por um instante, antes de subir ao céu, onde seu Morto deveria estar, se o mundo fosse um lugar correto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o mundo era uma merda. Bem assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Pietra de hoje já não achava mais a vida divertida. Ela era só um saco, assim como o são todas as pessoas que fingem prazer, fingem amor, fingem viver, enquanto morrem por dentro, todo dia um pouco. As pessoas têm o péssimo costume de dizer uma coisa quando sentem outra. Mudam de planos, machucam os outros sem perceber, esquecem e apagam o que está escrito a fogo na alma de outra pessoa. Viram as costas para quem sofre por elas, e cobram muito de vidas que não são as suas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas, pensou a Pietra de hoje, enquanto fumava, eram falhas e amadas por causa disso. O que ela achava lixo, todos chamavam de “natureza humana”. “Nunca confie nos homens, são todos iguais”. Se são iguais, e sabem disso, &lt;em&gt;por quê não mudam?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A Pietra de hoje estava ali para que a pequena Pietra pudesse correr para um lugar onde não houvesse pessoas mortas, mas, principalmente, onde não houvesse pessoa nenhuma. Esmagando o cigarro com o salto quadrado do sapato preto, e ao mesmo tempo acendendo outro, a Pietra de hoje meio que sorri ao dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Boa viagem, garota. Aproveite. Hoje eu seguro as pontas por aqui.”&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-4515590645889864591?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/4515590645889864591/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=4515590645889864591' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/4515590645889864591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/4515590645889864591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2009/03/so-por-hoje.html' title='Só Por Hoje'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-2501044178515837453</id><published>2008-05-04T18:22:00.000-07:00</published><updated>2008-05-04T19:24:48.278-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ouça a minha voz,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;É para você que canto&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Agora que nosso tempo se foi&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;E que não sabemos mais amar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nós, que fingimos viver&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Só para encontrar outras mãos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que nos livre de nossas lembranças&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas que não conseguimos esquecer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O sol já vai raiar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não há mais estrelas no céu&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas o passado ainda é nossa casa&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O presente há de esperar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Olhe para mim, e veja:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Você diz que me faz sofrer&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Você acha que pode me fazer chorar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas meus olhos são somente espelhos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Se pudéssemos prever tudo isso&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Talvez a paz fosse nossa&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Junto com a dor e a morte&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;E tudo o mais que nos resta&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não tente mudar o passado,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Aceite o futuro que chega&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pois nada mudará entre nós...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nada mudará para ninguém...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Enquanto estivermos juntos.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-2501044178515837453?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/2501044178515837453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=2501044178515837453' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/2501044178515837453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/2501044178515837453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2008/05/oua-minha-voz-para-voc-que-canto-agora.html' title=''/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-615460429932620798</id><published>2008-04-15T17:11:00.000-07:00</published><updated>2008-04-15T17:12:37.015-07:00</updated><title type='text'>Os Outros</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;São nove horas de uma noite indefinida. Pietra olha para o céu, sente a brisa que limpa o ar, e percebe que ele está de volta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Ela ainda está longe de casa; a chuva a alcançará antes que ela chegue ao lar. É uma noite fria e úmida, abençoada em sua limpidez. Pessoas apressadas passam — como podem elas viver na indiferença? Como &lt;u&gt;ela&lt;/u&gt; pôde viver assim, ignorando as sombras? Era tarde, e muito, para perguntas: pois ele voltara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Fechando os olhos, cessando de andar, ela tenta se lembrar: o cheiro, os olhos castanhos, o andar despreocupado com as pernas meio arqueadas. A risada (mas o que o fazia rir, mesmo?) e as brigas. Não lembra de quase nada. É como se ele não existisse para ela, não mais do que um personagem de filme.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;O vento agita seu cabelo, mas ela não consegue discernir se é mesmo o vento ou a mão calejada que um dia apertara entre as suas. Ele veio, pensa ela. Veio para me matar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Sabe disso, como sabe que ele a vigia de qualquer lugar por perto, talvez do topo de um prédio, talvez de alguma janela. Tamanha certeza transforma a esperança de erro em aceitação do fato, e anula o medo. Ela não tem medo de morrer, mas também não deseja tal fim. Muito menos pelas mãos do homem que a abandonara, e agora voltava a desejá-la como se assim fosse seu direito, como se fosse ela uma boneca de corda.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;O calafrio aumenta a cada homem que passa por ela, cada um dos muitos paulistanos altos e de cabelos curtos que ela encontra em sua caminhada até o metrô. Não é ele. Não, muito alto; muito gordo; nada a ver; nada... ele está perto. Está vindo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Não consegue, por mais que tente, lembrar suas músicas preferidas, nem se ele gostava de ficar sozinho. No desespero de esquecer o amor que sentira, Pietra esquecera também da pessoa que ele fora. E ele, que já não é mais nada, nem lembranças, vem agora cobrar seu preço &lt;st1:personname productid="em sangue. Ela" st="on"&gt;em sangue. Ela&lt;/st1:PersonName&gt; treme. Achara que ele a havia esquecido também, mas errara, o que é imperdoável. O vento torna-se mais forte, e gotas grossas caem por toda a rua.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;E, por entre a franja que molha, ela o vê. Abraçando a mulher que os separara, o braço posto amorosamente em volta da cintura delgada. Ele olha para trás e não lhe sorri, nem acena, e Pietra finge ignorá-los.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;E já não se permite sentir medo, pois o medo de nada serve quando de uma condenação já escrita. Mas diminui o passo, não pode evitar de fazê-lo. Só ela sabe o preço que aquele amor lhe custou, e o quanto de sua vida foi levada com ele, bem como tudo o que ainda a prende a ele. Ela nunca lhe seria indiferente, por mais que tentasse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Os olhos dele ainda fixos nela, a expressão desafiadora já velha conhecida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Quando a mulher que ele abraça volta a cabeça para trás, a fim de olhar para Pietra também, a menina abafa um grito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 6pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: &amp;quot;Book Antiqua&amp;quot;;"&gt;Não há mais pele ou carne alguma no rosto de sorriso morto. Pois eis que é o destino das que o amam ou são amadas por ele. E Pietra sabe que, até que se fechem para sempre, aqueles olhos escuros a perseguirão por onde ela vá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-615460429932620798?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/615460429932620798/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=615460429932620798' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/615460429932620798'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/615460429932620798'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2008/04/os-outros.html' title='Os Outros'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-9040207140054010538</id><published>2008-03-19T19:05:00.000-07:00</published><updated>2008-03-19T20:14:58.927-07:00</updated><title type='text'>Um conto para esquecer</title><content type='html'>Um pôr-do-sol, uma bicicleta e um violão - naqueles dias, era tudo o que ele possuía, e tudo o que realmente lhe importava. Pedalava alguns minutos, levando o instrumento nas costas, todas as tardes, ao voltar do trabalho. Ainda de terno e gravata, o cabelo comprido escondendo os brincos e desmentindo a pose de homem sério que a vestimenta impunha, ele seguia para a agência de turismo onde ela trabalhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Invariavelmente, ela aparecia na porta antes que ele chegasse, ainda com o cabelo amarrado num duro penteado de secretária, mas já com as calças &lt;span style="font-style: italic;"&gt;jeans&lt;/span&gt; da liberdade. Corria, lançava-lhe um longo beijo na bochecha e colocava o violão nas costas, subindo na garupa da bicicleta. Iam para a praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde falavam de tudo, qualquer coisa, ele reclamando e ela rindo, e vice-versa. Sentados na areia, falavam de sonhos e cantavam juntos enquanto não os realizavam. Abraçavam-se, sorriam, brincavam, mas nunca imaginavam um futuro só para os dois. Eram e estavam amigos ali, o que era bastante para ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele resolveu ir embora com seu grande amor, ela só sorriu e entendeu, sem perdoá-lo: disse que o esperaria, ali, naquela areia e naquele mar, até que ele voltasse. Queria que ele ficasse, mas deixou-o ir, e ele agradeceu sendo feliz, e nunca esquecendo daquela tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava ele, com o mesmo violão e a mesma bicicleta, um ano depois decidindo voltar. No mesmo horário de sempre, procurou-a na agência de turismo; não a encontrando, surpreendeu-se, e pôs-se a procurá-la, ansioso de saudades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcançando a casa da moça, mal cabendo em si de felicidade, foi recebido por sua mãe que, ainda chorando lágrimas recentes, contou-lhe que ele não mais veria a amiga nesta terra. Morrera atropelada, voltando do trabalho, não havia nem duas semanas. Antes de ele ir embora, engolindo a tristeza, a senhora recordou que sua filha sempre sentira falta dele, e lamentou o destino que a levara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitado na areia, sendo o céu estrelado, ele chorava e se deseperava, por não ter voltado a tempo de ver a amiga mais uma vez, por ter desistido dela e, principalmente, por ela não ter cumprido a promessa, a última que lhe fizera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Você jurou que me esperaria para sempre!&lt;/span&gt; - gritou, para o céu, para o mar, almejando alcançá-la, ela que já nem existia mais... voltou a chorar, lembrando de tudo, não querendo nada mais, além de ouvi-la cantar novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levou mais de duas horas para que ele percebesse o que deveria ser feito, e que ela realmente não faltara à sua palavra. Arrancou o violão da capa e começou a cantar - sem tom, amargamente, uma música desconexa que mal lhe despontava à memória. Mas, ainda assim, a única forma que lhe restara de voltar para os braços de sua amiga.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-9040207140054010538?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/9040207140054010538/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=9040207140054010538' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/9040207140054010538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/9040207140054010538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2008/03/um-conto-para-esquecer.html' title='Um conto para esquecer'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5333095964840378922.post-2409056965831735085</id><published>2008-03-10T18:16:00.000-07:00</published><updated>2008-03-19T20:14:16.283-07:00</updated><title type='text'>A Senhora dos Olhos Brancos</title><content type='html'>Eu voltaria? Por que deveria voltar? Por que seria bom para você, seu mundo, o lixo que se tornou sua visão da vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  As palavras negaram-se a entrar diretamente no corpo dele. Bailaram, desorientadas, procurando seu caminho natural, sem entenderem a recusa do homem em aceitar o que ele sabia ser o fim da própria vida. Ele vira a recusa nos olhos de diamante dela, muito antes de ouvir sua voz - antes mesmo de encontrá-la, ele sempre soubera. Ainda assim, não reunira coragem suficiente para realizar seu pesadelo. Insistiu, os olhos postos nos braços feridos; ela não demonstrou incômodo na expressão fria do rosto, porém apertou com os dedos ossudos sua estola de raposa branca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Volte. Volte comigo. Volte para mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ela riu sem querer, ao lembrar do passado. Fora escrava daquele senhor ferido, aquele de joelhos postos ao chão, o corpo cheio de sangue e desespero. A ele servira, por ele perdera irmãos, amigos, e a si própria. Somente recuperara seus sonhos ao ser expulsa de sua pátria. Lançada foi ao deserto de gelo, suas lágrimas congelaram em suas pupilas, fazendo-na cega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Volte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ele não a procurara, nunca antes de agora. Não estendera a mão para a miserável alma, tão cega e perdida quanto o corpo - não, não fora a mão dele que a carregara para um lugar quente, para casa e comida. Tornara-se senhora daquela mão salvadora, e de seu dono, do homem e do lar que nunca vira. Possuía uma felicidade que se tornara tangível, de tão bela. Era rainha e princesa, protegida e heroína, de seu próprio castelo e com seu próprio Rei. E, agora, ele voltava, com cheiro de feridas e de angústia, implorando-lhe para ir com ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Os cachos negros de sua cabeça balançaram com sua negativa. Fracamente. O homem não viu, a cabeça baixa escondendo os olhos dos olhos dela, quando ela hesitou. Pela respiração entrecortada dele, ela percebeu que ele chorava, e quase chorou também. Lembrava das tardes verdes na casa verde, enquanto ele pisava com doçura em sua cabeça. Não lembrava o porquê, mas parecia-lhe que era feliz naquela época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um gesto, ela o fez levantar. Ergueu os olhos para o escuro de sua visão onde, tinha quase certeza, seria o rosto dele. Não o tocou, nem sorriu em despedida. Ele engoliu com dificuldade entre as lágrimas, mirando os olhos cegos, sentindo na boca o sal de lágrimas que não eram suas. Sinceramente, não entendia como aquela que desejara, além de tudo e de todos, estar ao seu lado, agora negava seu chamado. Mas ele não podia mais viver sem... mesmo com... por favor, volte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguiu virar-lhe as costas antes de morrer. Tombou de lado, sem um único gemido, ainda consciente quando seu corpo tornou-se gelo e, depois disso, mais nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5333095964840378922-2409056965831735085?l=ishdrey.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ishdrey.blogspot.com/feeds/2409056965831735085/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5333095964840378922&amp;postID=2409056965831735085' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/2409056965831735085'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5333095964840378922/posts/default/2409056965831735085'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ishdrey.blogspot.com/2008/03/senhora-dos-olhos-brancos.html' title='A Senhora dos Olhos Brancos'/><author><name>Carol H.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00788584589019072022</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
